
Última modificação em 14 de abril de 2026 às 08:51
Mensagens, áudios e imagens extraídos de um celular apreendido pela Polícia Federal (PF) ligam o governador de Roraima, Edilson Damião (União Brasil), a um suposto esquema de fraudes em licitações e desvio de recursos públicos na Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinf). As informações constam em inquérito obtido pela reportagem.
O material analisado pelos investigadores foi encontrado no aparelho do empresário Clóvis Braz Pedra, preso em janeiro sob suspeita de lavagem de dinheiro. Segundo a PF, as evidências indicam a existência de uma organização criminosa com divisão de funções entre agentes públicos e empresários.
De acordo com o relatório, Edilson Damião é apontado como o “chefe operacional” do esquema, responsável por manipular processos licitatórios quando ainda ocupava o cargo de secretário da Seinf. A investigação sustenta que ele distribuía previamente obras financiadas por emendas parlamentares a empresários aliados, antes mesmo da publicação oficial dos editais.
O ex-chefe da Casa Civil, Disney Barreto Mesquita, aparece como o “braço financeiro” do grupo. Mesmo sem exercer função formal no governo, ele teria controlado o fluxo de pagamentos da pasta e operado a lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada.
Já o empresário Clóvis Braz Pedra, dono da empresa C B Pedra (Rodoplacas), é descrito como “testa de ferro”, com a função de vencer formalmente as licitações para dar aparência de legalidade aos contratos, repassar as obras a terceiros e distribuir os lucros e propinas.
Provas e conversas
Entre os elementos reunidos pela PF está uma imagem enviada por Damião ao empresário, contendo uma planilha de emendas parlamentares. Em um dos trechos, o nome “Clóvis” aparece manuscrito ao lado de uma obra no município de Iracema, orçada em mais de R$ 1 milhão.
Segundo a investigação, o envio da planilha ocorreu em novembro de 2024, enquanto o edital da licitação correspondente só foi publicado em fevereiro de 2025, o que indicaria direcionamento prévio.
O inquérito também cita um áudio enviado por Clóvis a Damião, no qual o empresário questiona sobre a liberação de pagamento e menciona que Disney Mesquita já havia confirmado o repasse antes mesmo de qualquer instrução oficial da secretaria.
Para a PF, o uso da expressão “nossa empresa” na conversa reforça a ligação direta entre os investigados e evidencia a atuação de Mesquita como responsável financeiro do grupo.
Em outra troca de mensagens, Clóvis afirma a um interlocutor que “o que rola lá não é meu”, indicando que sua empresa não executava diretamente os serviços contratados, como obras e terraplanagem. A conclusão dos investigadores é de que a empresa era utilizada apenas para formalizar contratos e ocultar a origem dos recursos.
Defesa e posicionamentos
Procurado, o Governo de Roraima informou que não tem conhecimento da investigação e que não foi oficialmente comunicado sobre o caso.
A defesa de Clóvis Braz Pedra declarou que as acusações não foram submetidas à Justiça e classificou o conteúdo como “ilações sem suporte probatório”, afirmando que irá se manifestar apenas nos autos.
Disney Mesquita negou qualquer irregularidade e afirmou, em nota, que não possui contratos com o governo estadual.
A Secretaria de Infraestrutura, por sua vez, declarou que todos os processos foram conduzidos dentro da legalidade e que o inquérito apresenta apenas indícios ainda não comprovados. A pasta também destacou que, desde 2023, as licitações do Executivo passaram a ser centralizadas em um novo órgão, não sendo mais de sua responsabilidade direta.
Investigação
As apurações tiveram início em janeiro de 2026, após a prisão de Clóvis Braz Pedra, de uma assistente administrativa e de um policial militar em Boa Vista, suspeitos de lavagem de dinheiro e associação criminosa.
Com a apreensão dos celulares dos investigados, a PF identificou indícios do esquema envolvendo contratos públicos da Seinf e integrantes do alto escalão do governo estadual. À época, Edilson Damião ocupava o cargo de secretário da pasta e também era vice-governador.
Damião assumiu o governo em março de 2026, após a renúncia do então governador Antonio Denarium, que deixou o cargo para disputar o Senado. Ambos são réus em julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), acusado de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
Fonte: G1 RR