
Última modificação em 8 de maio de 2026 às 09:21
Um estudo internacional divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelou que 53% das famílias brasileiras nunca ou raramente leem livros para crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola nos estados do Ceará, Pará e São Paulo. Apenas 14% dos responsáveis afirmaram realizar a leitura compartilhada entre três e sete vezes por semana, índice muito abaixo da média internacional, de 54%.
Os dados fazem parte da publicação Aprendizagem, bem-estar e desigualdades na primeira infância em 3 estados brasileiros: Evidências do International Early Learning and Child Well-being Study (IELS), desenvolvida com apoio do Sesi.
Segundo o coordenador do levantamento e pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE/UFRJ), Tiago Bartholo, o cenário é preocupante inclusive entre famílias de maior renda.
“Essa informação ainda não está devidamente disseminada. São momentos muito importantes para o bem-estar e para o desenvolvimento das crianças”, afirmou.
O estudo aponta que a leitura compartilhada ainda não é percebida por muitas famílias como parte fundamental do processo de alfabetização e do desenvolvimento infantil. A pesquisa também sugere a ampliação de políticas públicas voltadas ao apoio às famílias e ao fortalecimento da relação entre responsáveis e escolas.
Desigualdades aparecem ainda na infância
O levantamento avaliou 2.598 crianças de 5 anos em 210 escolas públicas e privadas dos três estados. A pesquisa analisou áreas como linguagem, matemática, funções executivas e habilidades socioemocionais.
Os resultados mostram que desigualdades relacionadas a renda, raça e gênero já aparecem no fim da educação infantil. Crianças pretas, pardas, indígenas e de menor nível socioeconômico apresentaram desempenho inferior em diversas áreas avaliadas, especialmente em matemática e memória de trabalho.
No recorte racial, crianças brancas tiveram vantagem de 17 pontos em linguagem e de 40 pontos em numeracia — habilidade relacionada às primeiras noções matemáticas.
A pesquisadora Mariane Koslinski avalia que políticas públicas recentes voltadas à alfabetização podem ter contribuído para os resultados positivos em linguagem.
“Na literacia emergente, o Brasil foi bem porque teve várias políticas que apoiaram a alfabetização, a formação de professores e isso contribuiu, muito provavelmente, para esse resultado”, explicou.
Uso de telas preocupa pesquisadores
O estudo também mostrou que o uso de dispositivos digitais é frequente entre crianças pequenas. Segundo os dados, 50,4% das crianças utilizam diariamente aparelhos como celulares, tablets e computadores, percentual acima da média internacional, de 46%.
Para os pesquisadores, o uso excessivo de telas pode impactar negativamente o aprendizado e o desenvolvimento infantil.
“Uma coisa é uma criança fazer um uso diário de 30 minutos, uma coisa muito diferente fazer um uso diário de três a quatro horas. E a gente sabe que esse tipo de comportamento existe”, alertou Tiago Bartholo.
Além disso, cerca de 62% das crianças raramente ou nunca utilizam dispositivos digitais para atividades educativas.
Crianças saem menos de casa
A pesquisa identificou ainda baixa frequência de atividades ao ar livre entre as famílias brasileiras. Apenas 37% afirmaram realizar regularmente caminhadas, brincadeiras livres e outras atividades externas com as crianças, abaixo da média internacional de 46%.
Segundo o estudo, experiências fora de casa contribuem para o desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional das crianças, além de favorecerem criatividade, socialização e resolução de problemas.
O Brasil foi o único país da América Latina a participar do estudo da OCDE, que também contou com países como Bélgica, China, Coreia do Sul, Holanda e Inglaterra.
Fonte: Agência Brasil
Por: M3 Comunicação Integrada