
Última modificação em 13 de maio de 2026 às 08:55
O hábito de parcelar compras do dia a dia, como supermercado, combustível e medicamentos, tem contribuído para o aumento do endividamento das famílias brasileiras. Especialistas em economia e educação financeira alertam que o uso frequente do crédito para despesas básicas pode comprometer o orçamento e levar milhões de pessoas à inadimplência.
A facilidade de parcelamento, muitas vezes oferecida sem juros aparentes, tem mudado o comportamento do consumidor. O que antes era pago à vista agora passa a ser dividido em várias parcelas, criando uma falsa sensação de controle financeiro.
Segundo a diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, o crédito deveria ser utilizado principalmente para aquisição de bens duráveis e de maior valor, e não para cobrir gastos cotidianos.
“Estamos vendo muitas pessoas utilizando o crediário para pagar contas do orçamento mensal”, afirmou.
“Ansiedade de consumo” impulsiona compras
A economista Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que o fácil acesso ao crédito também estimula a chamada “ansiedade de consumo”, incentivada pela publicidade e pelas redes sociais.
Segundo ela, muitas pessoas acabam antecipando compras por impulso, influenciadas por anúncios e recomendações de influenciadores digitais, sem analisar o impacto das parcelas no orçamento.
“Há diversos apelos à compra, e as pessoas têm acesso ao crédito, o que viabiliza anteciparem o consumo”, explicou.
Ela destaca que grande parte dos consumidores avalia apenas se a prestação “cabe no bolso”, sem considerar juros, quantidade de parcelas e o comprometimento da renda futura.
Crédito não é renda extra
Especialistas também alertam para um erro comum entre consumidores: considerar o limite do cartão de crédito ou do cheque especial como parte da renda mensal.
A economista Isabela Tavares, da Consultoria Tendências, reforça que o crédito deve ser pago com o salário recebido no mês, e não tratado como dinheiro adicional.
“Quem ganha R$ 5 mil e tem limite de R$ 5 mil no cartão não possui renda de R$ 10 mil”, exemplificou.
Mais de 81 milhões estão inadimplentes
Dados da Serasa Experian mostram que o Brasil possui atualmente 81,7 milhões de pessoas inadimplentes. Segundo o levantamento, quase metade das dívidas em atraso está ligada a bancos e instituições financeiras.
O Banco Central também informou que a inadimplência das famílias chegou a R$ 238,5 bilhões em março deste ano, o equivalente a 5,3% de todo o crédito concedido às pessoas físicas no país.
A situação afeta principalmente famílias de baixa renda. De cada 100 inadimplentes, 78 recebem até dois salários mínimos.
Sem acesso a linhas de crédito mais baratas, muitos consumidores recorrem ao cheque especial e ao rotativo do cartão de crédito — modalidades com algumas das maiores taxas de juros do mercado.
Educação financeira é apontada como solução
Economistas e especialistas defendem que a ampliação da educação financeira é essencial para reduzir o endividamento no país.
O planejador financeiro Carlos Castro afirma que medidas emergenciais ajudam momentaneamente, mas a mudança definitiva depende de orientação e planejamento financeiro.
“A solução é evitar que o brasileiro volte a se endividar e permaneça no mesmo nível de endividamento atual”, destacou.
Fonte: Agência Brasil