
Última modificação em 2 de abril de 2026 às 08:36
Opinião
Em Roraima, a maioria dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes ocorre dentro de casa — e não nas ruas. O dado confronta uma percepção comum de que o perigo está no desconhecido, quando, na prática, muitas vezes está no ambiente que deveria oferecer proteção.
A violência, embora presente em todas as sociedades, se manifesta de formas distintas conforme o contexto. Nesse cenário, estruturas como machismo e misoginia não podem ser vistas como comportamentos isolados, mas como elementos que organizam relações de poder, naturalizam desigualdades e silenciam vítimas.
Na rotina das investigações, esse padrão se repete: a maior parte dos casos de estupro de vulnerável é intrafamiliar. O agressor, frequentemente, é alguém próximo, com autoridade ou vínculo direto com a vítima — o que desloca o debate da segurança pública para questões como dependência econômica, relações familiares e hierarquias sociais.
O machismo estrutural sustenta esse ciclo ao reforçar a autoridade masculina, objetificar o corpo feminino e, muitas vezes, culpabilizar a vítima. O silêncio, nesses casos, não é apenas individual — ele é produzido por medo, vergonha e desconfiança nas instituições.
Em Roraima, fatores específicos ampliam a vulnerabilidade. Desigualdade social, grandes distâncias territoriais e a condição de estado de fronteira — marcada por fluxos migratórios e atividades como o garimpo — impõem desafios adicionais à atuação do poder público.
Em áreas mais remotas, o acesso a redes de proteção, educação e canais de denúncia ainda é limitado, dificultando a quebra do ciclo de violência. Ainda assim, o cenário não indica ausência do Estado, mas sim a complexidade de atuar em um território com dinâmicas próprias.
Nos últimos anos, instituições públicas têm ampliado sua presença, com políticas de interiorização, ações itinerantes e maior aproximação com comunidades.
A atuação da Polícia Civil de Roraima tem sido central nesse processo, especialmente por meio da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). Em 2025, mais de 95% dos inquéritos instaurados foram concluídos, sendo cerca de 93% com autoria identificada e encaminhados ao Judiciário.
Além da repressão, há um trabalho preventivo importante. Palestras, seminários e ações educativas ajudam a orientar crianças e adolescentes e incentivam denúncias.
Um exemplo foi a “Caixinha da Coragem”, atividade realizada no interior do estado que permitiu registros anônimos de situações de violência. Ao final, foram identificadas 17 denúncias, incluindo casos de importunação sexual, estupro de vulnerável e maus-tratos — evidenciando o impacto de estratégias acessíveis e acolhedoras.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o Brasil registrou, em 2024, 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável, o maior número da série histórica. Desses, 65,7% ocorreram no ambiente doméstico, e mais de três quartos das vítimas tinham menos de 14 anos.
No recorte regional, Roraima apresentou a maior taxa de estupros da Amazônia Legal, o que reforça a gravidade do cenário local.
Especialistas alertam, no entanto, que o aumento dos registros não deve ser interpretado automaticamente como crescimento da violência. Em muitos casos, os números refletem a redução da subnotificação — ou seja, mais vítimas estão denunciando e sendo ouvidas.
A percepção de que os crimes estão aumentando pode ser influenciada pela maior visibilidade das ações policiais e pelo volume de prisões. Ainda assim, reduzir a análise a números absolutos pode levar a interpretações equivocadas.
Compreender a violência em Roraima exige considerar a interação entre fatores culturais, sociais e institucionais. Se por um lado estruturas históricas sustentam desigualdades, por outro, é a capacidade de resposta do Estado que define se essas violências permanecem invisíveis ou passam a ser enfrentadas.
O silêncio, embora ainda presente, começa a ser rompido. Mas a superação desse cenário depende da continuidade das políticas públicas, do fortalecimento das instituições e do compromisso coletivo com a proteção de crianças e adolescentes.
Matheus Rezende de Oliveira
Delegado da Polícia Civil de Roraima e titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA)
Fonte: Folha de Boa Vista
Imagem: Gerada por IA