O texto reforça que o diagnóstico do TEA é essencialmente clínico, feito a partir da observação do comportamento. Foto: Unicef/ONU
Última modificação em 29 de outubro de 2025 às 09:41
A Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou um novo documento com 33 páginas que atualiza as recomendações para o diagnóstico e o tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) no país. A diretriz, elaborada pelo Departamento Científico de Transtornos do Neurodesenvolvimento, reúne orientações práticas para profissionais da saúde que atuam com crianças e adolescentes e substitui a versão anterior, de 2021.
O texto reforça que o diagnóstico do TEA é essencialmente clínico — feito a partir da observação do comportamento, entrevistas com pais ou responsáveis e critérios do DSM-5. A SBNI destaca, ainda, que fatores externos como vulnerabilidade social e uso excessivo de telas podem gerar quadros semelhantes ao autismo, o que exige atenção redobrada para evitar diagnósticos equivocados.
Diagnóstico precoce e importância do rastreamento
Segundo a diretriz, não existe exame laboratorial capaz de detectar o autismo. Por isso, a avaliação precoce é considerada fundamental. A SBNI recomenda iniciar o rastreamento a partir dos 14 meses, utilizando ferramentas como o M-CHAT — um questionário que identifica sinais iniciais do transtorno. Desde 2023, o Ministério da Saúde orienta a aplicação obrigatória desse teste em unidades de saúde para crianças entre 16 e 30 meses.
Entre os itens avaliados estão comportamento social, comunicação e resposta a estímulos, com perguntas como: “Se você aponta para um objeto, a criança olha para ele?” ou “Ela aponta para pedir ajuda?”. O documento também sugere exames genéticos e de imagem como complementares — não essenciais, mas úteis em diagnósticos diferenciais.
Telas e sintomas que podem confundir
Um ponto de destaque da atualização é o alerta sobre o uso excessivo de telas na primeira infância. A SBNI afirma que a exposição prolongada pode levar ao chamado “autism-like syndrome”, um conjunto de sintomas que imita o TEA, como atraso na fala, isolamento social e redução do contato visual. A entidade reforça que telas não causam autismo, mas competem com estímulos essenciais ao desenvolvimento cognitivo e social nessa fase.
Tratamento: evidências científicas em primeiro lugar
A nova diretriz esclarece que não há cura para o autismo e que medicamentos não tratam os sintomas centrais do transtorno. A base do cuidado deve ser composta por intervenções terapêuticas e educacionais, como ABA (Análise do Comportamento Aplicada), Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e treino de habilidades sociais.
Fármacos são indicados apenas para condições associadas, como ansiedade, agressividade, hiperatividade ou insônia. Entre os aprovados pela Anvisa para uso pediátrico estão a risperidona (a partir de 5 anos) e o aripiprazol (a partir de 6 anos).
Abordagem multidisciplinar
A SBNI reforça a necessidade de avaliação integrada, com participação de médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. O diagnóstico segue os critérios do DSM-5, com classificação em três níveis de suporte (1, 2 e 3), conforme o grau de autonomia da criança.
O que não tem comprovação científica
A entidade alerta para práticas sem respaldo em pesquisas científicas, como dietas restritivas (sem glúten ou caseína), suplementações não supervisionadas, terapias com células-tronco, ozonioterapia e uso de canabidiol (CBD) para autismo. Também cita que a psicanálise direcionada ao TEA não possui resultados consistentes nos sintomas centrais do transtorno e, por isso, não deve substituir terapias baseadas em evidências.
Passo importante para padronizar o cuidado
Com 33 páginas, a nova diretriz pretende orientar condutas clínicas e garantir mais segurança para profissionais e famílias. O documento também destaca a importância de relatórios claros e éticos, fundamentais para acesso a terapias e políticas públicas. Para a SBNI, a atualização representa um avanço rumo a um cuidado mais qualificado, baseado em ciência, empatia e inclusão.
Por: M3 Comunicação Integrada