
Última modificação em 16 de março de 2026 às 09:28
Passar muitas horas estudando nem sempre significa aprender mais. Em alguns casos, o excesso de informações pode até dificultar a compreensão do conteúdo. A explicação está em conceitos da neurociência relacionados à memória de trabalho e à chamada carga cognitiva.
Segundo a especialista em educação Noelia Valle, professora de fisiologia da Universidade Francisco de Vitoria, na Espanha, o aprendizado não depende apenas da quantidade de tempo dedicado aos estudos, mas da forma como o cérebro processa as informações.
“O cérebro humano não aprende por acumulação, mas por integração”, explica a educadora.
Ela compara o processo a tentar encher uma garrafa com uma mangueira de incêndio em potência máxima: grande parte da água acaba se perdendo, enquanto a garrafa permanece parcialmente vazia.
Limite de processamento do cérebro
A memória de trabalho funciona como um espaço temporário do cérebro responsável por manipular informações necessárias para tarefas complexas, como raciocínio e resolução de problemas.
Esse sistema, porém, tem capacidade limitada. Estudos indicam que conseguimos lidar com apenas cinco a nove unidades de informação ao mesmo tempo — chamadas na psicologia de “chunks”.
Esses elementos podem ser dados simples ou conceitos mais complexos. A diferença está no nível de experiência de quem aprende.
Para um estudante iniciante, informações como frequência cardíaca elevada, pressão arterial baixa e pele fria podem aparecer como três dados diferentes. Já um médico experiente tende a agrupar esses sinais em um único conceito, como choque hipovolêmico.
Quando o cérebro recebe mais informações do que consegue processar ao mesmo tempo, parte do conteúdo simplesmente se perde.
O que é carga cognitiva
A carga cognitiva representa o esforço mental necessário para compreender e processar novas informações.
Segundo Valle, ela possui dois componentes principais:
Carga intrínseca: relacionada à dificuldade natural do assunto estudado.
Carga extrínseca: causada por fatores externos, como explicações confusas, excesso de estímulos ou distrações no ambiente.
Esses elementos podem tornar o processo de aprendizado mais difícil, mesmo quando o conteúdo em si não é extremamente complexo.
Estudar menos tempo pode ser mais eficiente
Pesquisas indicam que estudar duas horas por dia ao longo de várias semanas costuma ser mais eficiente do que concentrar muitas horas de estudo em um único dia.
Durante essas duas horas, também é recomendável fazer pausas curtas. Intervalos regulares ajudam a reduzir a sobrecarga mental e facilitam a consolidação das informações na memória de longo prazo.
Outro fator importante é que o cérebro aprende melhor quando precisa recuperar informações, e não apenas quando recebe conteúdo de forma passiva.
Estratégias que ajudam a aprender melhor
Algumas técnicas podem melhorar o rendimento nos estudos:
Transformar textos em esquemas ou mapas mentais
Fazer testes de autoavaliação
Explicar o conteúdo para outra pessoa
Reescrever respostas após revisar erros
Relacionar o conteúdo com exemplos do cotidiano
Essas atividades estimulam o cérebro a reorganizar e aplicar as informações, o que fortalece as conexões neurais associadas ao aprendizado.
Sono e ambiente também influenciam
O sono tem papel fundamental na consolidação da memória. Durante o descanso, o cérebro reorganiza e reforça as conexões entre neurônios relacionadas ao que foi aprendido ao longo do dia.
O ambiente de estudo também pode interferir no rendimento. Espaços com ruídos, excesso de estímulos ou notificações constantes do celular aumentam a carga cognitiva e reduzem a capacidade de concentração.
Aprender exige organização, não apenas esforço
Segundo a especialista, o aprendizado eficaz depende mais de compreender como o cérebro funciona do que simplesmente aumentar o tempo dedicado aos estudos.
“Não se trata de forçar o cérebro além dos seus limites, mas de entender a forma como ele processa informações”, afirma Valle.
Em outras palavras, estudar melhor — e não necessariamente estudar mais — pode ser o caminho para aprender de forma mais eficiente.
Fonte: G1
Por: M3 Comunicação Integrada