
Última modificação em 2 de abril de 2026 às 10:14
As adolescentes brasileiras apresentam níveis mais elevados de sofrimento emocional, insatisfação com o próprio corpo e exposição à violência em comparação aos meninos. É o que revela a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O levantamento traça um panorama da saúde e do comportamento de mais de 12 milhões de estudantes entre 13 e 17 anos das redes pública e privada. Entre os principais dados, chama atenção o fato de que 41% das meninas afirmaram ter se sentido tristes na maior parte do tempo ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa — índice quase 2,5 vezes maior que o dos meninos, que foi de 16,7%.
Outros indicadores também reforçam o cenário de vulnerabilidade. Cerca de 43,4% das adolescentes relataram já ter pensado em se machucar propositalmente no último ano. Além disso, 33% disseram sentir que ninguém se preocupa com elas, e 25% afirmaram acreditar que a vida não vale a pena ser vivida.
A pesquisa também aponta níveis elevados de ansiedade e irritabilidade: 61% das meninas relatam preocupação excessiva com o cotidiano, enquanto 58,1% dizem apresentar mau humor frequente.
Especialistas atribuem esses resultados a fatores sociais e culturais, como desigualdade de gênero, pressão estética, assédio e violência. Segundo análises ligadas ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), esses elementos impactam diretamente a saúde mental e a autoestima das adolescentes.
Insatisfação com o corpo preocupa
A percepção corporal é outro ponto de destaque. De acordo com a pesquisa, 36,1% das meninas se consideram insatisfeitas ou muito insatisfeitas com o próprio corpo — o dobro do registrado entre os meninos (18,2%).
Enquanto parte dos meninos busca ganhar peso, 31,7% das meninas tentam emagrecer, e 21% se veem como “gordas ou muito gordas”, muitas vezes com distorções de autoimagem.
Maior exposição à violência
As adolescentes também aparecem como principais vítimas de diferentes formas de violência. Cerca de 30,1% relataram sofrer bullying com frequência, e 15,2% disseram já ter sido alvo de agressões virtuais.
Os dados sobre violência sexual são ainda mais alarmantes: 26% afirmaram ter sofrido algum tipo de assédio, enquanto 11,7% disseram ter sido forçadas a manter relações sexuais.
Pobreza menstrual impacta frequência escolar
Pela primeira vez, a PeNSE traz dados sobre dignidade menstrual. O estudo mostra que 15% das adolescentes deixaram de ir à escola ao menos um dia no último ano por falta de absorventes.
Apesar da existência de políticas públicas voltadas ao tema, ainda há dificuldades de acesso, além de problemas estruturais nas escolas, como falta de banheiros adequados e privacidade.
Desafios estruturais e sociais
Mesmo com melhores índices de conclusão escolar, meninas ainda enfrentam desafios como gravidez precoce, sobrecarga de tarefas domésticas e maior controle social sobre sua vida pessoal.
Especialistas destacam que o enfrentamento dessas desigualdades passa pela criação de políticas públicas específicas, com foco na proteção, no bem-estar emocional e na promoção de oportunidades para meninas e adolescentes.
A pesquisa reforça a importância do papel das escolas e das famílias na identificação precoce de sinais de sofrimento emocional e na construção de ambientes mais acolhedores e seguros para os jovens.
Fonte: G1