
Última modificação em 2 de abril de 2026 às 09:00
A recente alta no preço do querosene de aviação (QAV), impulsionada pela guerra no Oriente Médio, pode fazer as passagens aéreas subirem até 20% no Brasil, segundo especialistas do setor.
O reajuste foi anunciado pela Petrobras, que elevou em mais de 50% o preço médio do combustível vendido às distribuidoras a partir deste mês. A medida acompanha a valorização do petróleo no mercado internacional, em meio ao conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
De acordo com André Castelini, sócio da Bain & Company, o impacto no setor é direto. “Os gastos para transportar um passageiro por quilômetro vão aumentar aproximadamente 20%. Como quase metade das despesas das companhias aéreas é com o QAV, o custo operacional deve subir nessa proporção”, afirma.
Ainda segundo o especialista, o repasse para o consumidor pode não ser imediato, já que depende de fatores como ocupação dos voos e estratégia de cada empresa. Mesmo assim, o cenário pode levar à redução de rotas menos lucrativas.
“Talvez elas tenham que cortar voos que não sejam rentáveis, porque o passageiro não consegue absorver esse aumento. Com isso, o número de passageiros pode cair, e aí passa a fazer sentido reduzir a oferta”, acrescenta.
Na mesma linha, Maurício França, da L.E.K. Consulting, projeta um aumento médio entre 10% e 20% nas tarifas, com um cenário mais provável em torno de 15%.
“Esse é um movimento relevante porque, quando o preço das passagens sobe, a demanda tende a recuar. Para cada 1% de aumento no preço, a demanda tende a cair em magnitude semelhante, embora isso varie conforme o perfil do passageiro”, afirma.
Segundo ele, viagens de lazer tendem a ser mais sensíveis ao preço, enquanto deslocamentos a trabalho sofrem menor impacto. “Em um cenário de alta de cerca de 15% nas passagens, é razoável esperar também uma retração da demanda em torno de 15%”, avalia.
Impacto no setor
A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) classificou o reajuste como tendo “consequências severas” para o setor. Com a nova alta, o combustível passa a representar cerca de 45% dos custos operacionais das companhias aéreas, ante pouco mais de 30% anteriormente.
Segundo a entidade, o cenário pode afetar a abertura de novas rotas, reduzir a oferta de voos e comprometer a conectividade aérea no país.
Tentativas de conter a alta
Para suavizar os impactos, a Petrobras anunciou que parte do reajuste será parcelada. Em abril, o aumento efetivo será de cerca de 18%, enquanto a diferença até os 54% previstos será dividida em seis parcelas a partir de julho.
Além disso, o governo federal avalia medidas para reduzir a pressão sobre o setor, como a diminuição temporária de tributos sobre o QAV, redução do IOF e ajustes no Imposto de Renda sobre operações de leasing de aeronaves.
O Ministério da Fazenda informou que monitora o cenário internacional e os possíveis impactos na economia brasileira, e que eventuais medidas serão adotadas com base em evidências e dentro das regras fiscais.
Com o petróleo em alta — que chegou a ultrapassar US$ 115 desde o início do conflito —, o setor aéreo entra em alerta, e o consumidor pode sentir no bolso os efeitos da crise internacional já nas próximas viagens.
Fonte: G1