Ex-gestor da Uerr enfrenta processos e investigações da Polícia Federal. Foto: Divulgação UERR
Última modificação em 21 de janeiro de 2026 às 10:57
O resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) de 2025 evidenciou uma diferença significativa entre os cursos de Medicina das universidades públicas de Roraima. Enquanto a Universidade Federal de Roraima (UFRR) obteve nota 4, em uma escala que vai até 5, a Universidade Estadual de Roraima (UERR) foi avaliada com nota 2, desempenho considerado insuficiente pelos critérios do exame.
De acordo com os dados divulgados, apenas 51,7% dos estudantes da UERR alcançaram o nível mínimo exigido na avaliação. O Enamed analisou 351 cursos de Medicina em todo o país. Com esse resultado, a universidade estadual passa a integrar o grupo de instituições sujeitas a processos de supervisão e à adoção de medidas cautelares por parte do Ministério da Educação (MEC).
Diferença de desempenho entre as instituições
A comparação entre UERR e UFRR não se limita a indicadores acadêmicos. Especialistas da área educacional apontam que resultados em avaliações nacionais refletem, além do desempenho discente, fatores como planejamento institucional, estabilidade administrativa, condições de infraestrutura, políticas de formação docente e organização curricular.
Apesar de enfrentar limitações orçamentárias e desafios logísticos próprios da região Norte, a UFRR manteve, nos últimos anos, um projeto acadêmico contínuo no curso de Medicina, o que se reflete no desempenho obtido no exame. Já a UERR atravessou um período marcado por instabilidade administrativa e sucessivas crises institucionais, fatores que impactam diretamente o ambiente acadêmico e a formação profissional.
Investigações e crises na gestão da UERR
Parte desse contexto está associada à gestão do ex-reitor Régys Freitas, que comandou a UERR em um período posteriormente marcado por investigações da Polícia Federal. Entre elas, destaca-se a Operação Cisne Negro, que apurou suspeitas de fraudes em contratos milionários, com indícios de direcionamento de licitações, superfaturamento de obras e serviços, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito.
Segundo a Polícia Federal, o prejuízo estimado ultrapassaria R$ 100 milhões. Durante o cumprimento de mandados judiciais, foram apreendidos dinheiro em espécie, joias, relógios de alto valor e moedas estrangeiras, além do bloqueio de bens. A operação foi desdobramento da Operação Harpia, deflagrada em agosto de 2023, quando R$ 3,2 milhões foram encontrados em sacos de lixo na residência de um familiar ligado a um dos investigados.
Outra frente de apuração foi a Operação Meritum, que investigou suspeitas de fraudes em vestibulares e concursos públicos da UERR, incluindo o curso de Medicina. As investigações apontaram indícios de vazamento de provas, favorecimento de candidatos e manipulação de processos seletivos. Régys Freitas e familiares foram alvos de mandados de busca e apreensão. Em abril de 2023, reportagem da Rede Record revelou que a esposa do então reitor obteve o primeiro lugar no vestibular de Medicina da instituição.
Mesmo diante das investigações, Régys Freitas concluiu seu mandato como reitor e, posteriormente, foi nomeado controlador-geral do Estado pelo governador Antônio Denarium. Após o avanço das apurações, ele foi preso, exonerado por determinação judicial e passou a utilizar tornozeleira eletrônica.
Reflexos institucionais e separação de responsabilidades
O desempenho da UERR no Enamed ocorre em um cenário no qual a universidade busca recuperar sua estabilidade institucional. Especialistas ressaltam que resultados em avaliações nacionais não podem ser atribuídos exclusivamente a estudantes ou docentes, que continuam atuando em atividades de ensino, pesquisa e extensão, mesmo em contextos adversos.
Indicadores como os do Enamed tendem a refletir decisões administrativas acumuladas ao longo do tempo, incluindo políticas de gestão, investimentos, transparência institucional e governança acadêmica. Nesse sentido, o contraste entre os resultados da UERR e da UFRR reforça o papel da administração universitária na consolidação da qualidade do ensino superior.
A divulgação dos dados reacende o debate sobre a necessidade de fortalecimento das instituições públicas de ensino, com foco em planejamento, controle, autonomia acadêmica e compromisso com a formação profissional, especialmente em áreas sensíveis como a Medicina, cujos efeitos ultrapassam o ambiente universitário e alcançam diretamente a sociedade.
Por: M3 Comunicação Integrada