
Última modificação em 2 de abril de 2026 às 08:16
Mulheres seguem como as principais responsáveis pelo cuidado de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil — e, nas regiões Norte e Nordeste, como Roraima, os desafios são ainda maiores, com maior dependência do sistema público de saúde e custos elevados para as famílias.
Os dados fazem parte de um levantamento inédito do Instituto Autismos, que reuniu respostas de 23.632 pessoas em todo o país e também aponta um avanço: o diagnóstico tem ocorrido mais cedo, em média aos 4 anos de idade.
A realidade por trás das estatísticas é refletida na história da advogada Anaiara Ribeiro, de 43 anos, mãe de João, de 18. A emoção tomou conta ao ver o filho chegar à faculdade, em Brasília. “Era o sonho dele fazer o curso de jornalismo”.
Para acompanhar o jovem de perto, ela decidiu até ingressar na universidade. A dedicação começou muito antes do diagnóstico, que só veio quando João tinha 8 anos. Desde os dois anos de idade, ela já buscava especialistas ao perceber sinais no comportamento do filho.
Para garantir o cuidado necessário, Anaiara deixou o emprego formal e passou a trabalhar como autônoma, conciliando jornadas à noite, feriados e fins de semana.
“Nada faria sentido se não fosse para ver a felicidade dele, e o seu crescimento, ver onde ele já chegou hoje”.
Norte enfrenta mais dificuldades
O levantamento mostra que, em regiões como o Norte — onde está Roraima —, as famílias recorrem mais ao sistema público para conseguir atendimento. Isso acontece tanto pela menor oferta de serviços especializados quanto pelos custos das terapias, que podem ultrapassar R$ 1 mil por mês.
“A maior parte das cuidadoras são mulheres. E grande parte dessas mulheres não estão no mercado de trabalho. Isso fala muito sobre o cuidado”, afirmou a presidente do instituto, Ana Carolina Steinkopf.
A sobrecarga feminina também aparece em histórias como a de Anaiara, que precisou reorganizar completamente a vida profissional e pessoal para dar suporte ao filho, especialmente após o divórcio.
Diagnóstico precoce é avanço
Apesar dos desafios, um dado positivo chama atenção: a idade média do diagnóstico caiu e agora está alinhada a padrões internacionais.
“A média da idade do diagnóstico tem sido igual ao dos padrões internacionais: em torno dos 4 anos de idade”, enfatiza Ana Carolina Steinkopf.
Segundo a especialista, o diagnóstico precoce é fundamental para garantir melhores resultados com terapias e estímulos.
Investimentos e rede pública
Diante da demanda crescente, o governo federal anunciou investimento de R$ 83 milhões para ampliar o atendimento no SUS, incluindo a criação de 59 novos serviços, como Centros Especializados em Reabilitação (CER) e transporte adaptado.
“Estamos estruturando uma rede cada vez mais preparada para cuidar das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no SUS, desde a identificação precoce na atenção primária até o atendimento especializado, com equipes multidisciplinares”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Inclusão ainda é desafio
No Brasil, a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que 2,4 milhões de pessoas estejam dentro do espectro.
Com o diagnóstico mais cedo, cresce também a busca por direitos, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e políticas de inclusão em áreas como educação e lazer.
Para Anaiara, essas conquistas fazem diferença na prática. “A inclusão, por exemplo, em todos os espaços de lazer, em que a pessoa com autismo não paga ingresso e a acompanhante tem 50% de desconto”, relata.
Hoje, ela reconhece que vive uma realidade incomum. Após o divórcio, reconstruiu a família e encontrou apoio em um novo parceiro.
“Sou uma exceção. A maioria das mães que eu conheço continuam solteiras ou separadas. Os pais abandonaram, seja fisicamente e financeiramente, mas eu tive a sorte de encontrar um parceiro que assumiu a paternidade do João. Somos muito felizes”.
Fonte: Agência Brasil