Especialistas apontam que a atual política monetária tem efeito limitado no Brasil. Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil
Última modificação em 29 de janeiro de 2026 às 08:45
Com a taxa básica de juros (Selic) mantida em 15% ao ano, os juros reais do país — descontada a inflação esperada para os próximos 12 meses — permanecem em torno de 10,6%, o maior nível desde maio de 2006, quando estavam em 10,7%.
Durante quase duas décadas, os juros reais ficaram abaixo de 10% e só voltaram a ultrapassar esse patamar em julho do ano passado, quando a Selic também alcançou 15%. Desde então, a expectativa de inflação começou a recuar, movimento que acaba elevando a taxa real. Segundo o último Boletim Focus, a projeção de inflação para este ano é de 4%.
O cenário atual guarda semelhanças com o de 2006, quando a Selic estava em 15,25% e a inflação projetada era de 4,1%.
Na última reunião, o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu, de forma unânime, manter a Selic em 15% pela quinta reunião consecutiva.
Por que o Brasil precisa de juros tão altos?
Para o professor da FGV e colunista da Folha, Bernardo Carvalho, taxas reais em torno de 10% são incomuns na história recente do país, já que o padrão considerado elevado ficava próximo de 7%.
Segundo ele, a política monetária tem efeito limitado no Brasil por dois fatores principais. Um deles é o grande volume de crédito direcionado, como financiamentos imobiliários e linhas do BNDES, que não seguem diretamente a Selic.
Além disso, o spread bancário elevado reduz o impacto de mudanças na taxa básica sobre o custo final do crédito. Assim, para surtir efeito, o Banco Central acaba precisando elevar os juros de forma mais intensa.
Carvalho também aponta que os aumentos recentes refletem o receio do Banco Central de perder credibilidade durante a troca de comando entre Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo. Segundo ele, havia expectativa de flexibilização da política monetária, o que poderia desancorar previsões de inflação, levando o BC a adotar uma postura mais dura do que o necessário.
Pressão fiscal e consumo também influenciam cenário
Já o economista Ailton Braga, assessor técnico do Senado e ex-analista do Banco Central, destaca que, mesmo com juros elevados, o gasto público primário de União, estados e municípios cresceu cerca de 7% ao ano entre 2022 e 2024, impulsionando a renda e o consumo.
Segundo ele, o aumento da renda também leva o sistema financeiro a ampliar a oferta de crédito, o que sustenta a demanda e pressiona preços.
Para a professora do Insper Juliana Inhasz, o principal fator por trás da manutenção dos juros elevados continua sendo a inflação de serviços, que permanece resistente.
“A inflação de serviços segue pressionada, as expectativas ainda não estão totalmente ancoradas e a situação fiscal continua sendo um fator de instabilidade”, afirma.
Fonte: Folha
Por: M3 Comunicação Integrada