Homem utilizando smartphone com vários aplicativos logados. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Última modificação em 12 de fevereiro de 2026 às 11:32
Você abre o TikTok “só por um minuto” e, quando percebe, já passou uma hora. Trabalha enquanto ouve um podcast e responde mensagens. Em meio a uma rotina marcada por estímulos rápidos e constantes, a desconexão se tornou um desafio. Acostumado à superestimulação, o cérebro fragmenta a atenção e salta de um ponto a outro sem descanso — como milho estourando em uma panela.
Para descrever esse estado mental, ganhou espaço o termo “cérebro de pipoca”. Segundo Stefano de la Torre, diretor do curso de Psicologia da Universidad Científica del Sur, no Peru, a expressão começou a circular no início da década de 2010, quando pesquisadores passaram a observar como o uso excessivo da internet, das redes sociais e das notificações rápidas produzia padrões persistentes de distração, sobretudo entre adolescentes e adultos jovens.
O cérebro humano sempre foi programado para buscar novidade e recompensas. O problema é que o ambiente digital foi desenhado justamente para explorar esse mecanismo biológico. Cada notificação, vídeo curto ou atualização funciona como um microestímulo capaz de ativar o sistema de recompensa.
O problema não é a dopamina em si, mas a interpretação cerebral de que a superestimulação se tornou a nova normalidade. Quando esse padrão se consolida, surgem irritabilidade ao se desconectar, dificuldade de tolerar o silêncio e necessidade compulsiva de verificar o celular.
Impactos na atenção e nas funções cognitivas
A estimulação constante também desgasta o córtex pré-frontal, responsável pelo controle atencional. “É como se a atenção se quebrasse em pedaços ou se fragmentasse por fadiga. As interrupções constantes, mesmo quando parecem pequenas, vão erodindo a capacidade do cérebro de manter o foco por períodos prolongados”, afirmou De la Torre.
Com essas habilidades enfraquecidas, a mente tende a operar de forma mais superficial: perde o fio de tarefas simples, encontra dificuldade para sustentar análises mais profundas e experimenta uma sensação de esgotamento mental.
No dia a dia, o “cérebro de pipoca” se manifesta em gestos como desbloquear o celular sem motivo claro, abandonar conteúdos antes do fim ou sentir ansiedade diante da ausência de estímulos. Nas relações pessoais, o impacto é igualmente perceptível: mesmo diante de alguém, a atenção pode permanecer dividida com a tela, tornando a escuta superficial e reduzindo a conexão emocional.
É possível reverter?
Especialistas afirmam que é possível recuperar grande parte da capacidade de atenção profunda. “Não se trata de ‘curá-lo’ completamente, mas de aprender a administrá-lo”, destacou De la Torre. Em casos de transtornos associados ou padrões aditivos mais enraizados, a reversão pode ser parcial.
Uma das estratégias recomendadas é o chamado detox digital: estabelecer metas concretas de redução do tempo de tela e mantê-las por pelo menos duas semanas, período necessário para começar a romper hábitos automáticos.
Outras medidas incluem:
- Desativar notificações não essenciais
- Evitar o uso de telas ao acordar e antes de dormir
- Criar espaços da casa livres de dispositivos
- Manter o celular distante durante tarefas que exigem concentração
- Substituir tempo de tela por atividades como leitura, caminhada, exercícios físicos ou hobbies
Práticas como mindfulness, leitura prolongada sem interrupções e atividade física regular também apresentam evidências de melhora no funcionamento do córtex pré-frontal.
Para os especialistas, um elemento central é reaprender a lidar com o tédio. Longe de ser um inimigo, ele pode funcionar como espaço para organização de ideias, processamento emocional e criatividade. O objetivo não é eliminar a tecnologia, mas restabelecer o equilíbrio e recuperar a capacidade de presença, foco e descanso em um ambiente cada vez mais saturado de estímulos.
Fonte: InfoMoney
Por: M3 Comunicação Integrada