
Última modificação em 6 de março de 2026 às 10:05
“Ainda nem caiu a ficha. É uma felicidade gigantesca”, comemora Thainá Santos, de 28 anos, ao tomar posse como policial penal nessa quarta-feira (4), em Boa Vista. A cerimônia marca o início de uma nova etapa profissional, e o desfecho de uma trajetória que havia sido interrompida durante o curso de formação por causa da gravidez.
Thainá foi aprovada no concurso da Polícia Penal realizado em 2020. Quando o curso de formação começou, ela já estava com seis meses de gestação. Até chegar a essa etapa, havia passado por prova objetiva, teste de aptidão física, avaliação psicológica, exame toxicológico e investigação social.
Ela conseguiu participar do curso por cerca de um mês, mas acabou desligada quando estava grávida de sete meses, por decisão administrativa da Secretaria de Justiça e Cidadania de Roraima (Sejuc). Segundo a jovem, isso ocorreu mesmo após apresentar exame médico que comprovava condições físicas e mentais para continuar nas atividades, além de atestado indicando que a gravidez não era de risco.
“Me senti punida. Me chamaram numa sala e disseram que a partir do outro dia eu não precisava mais ir. Acredito que deveria haver adaptação para não prejudicar as mulheres. Um homem não seria desligado por ser pai, e eu fui desligada por ser mãe”.
A partir daquele momento, começou uma longa disputa para garantir o direito de concluir o processo seletivo. Ainda grávida, Thainá tentou voltar ao curso por meio da Justiça. Na época, chegou a pagar R$ 3 mil a um advogado particular, mas não conseguiu reverter a decisão.
Caso foi questionado pelo Ministério Público
A situação mudou em 2023, quando a Promotoria de Justiça de Defesa da Mulher do Ministério Público de Roraima cobrou que a Sejuc reconsiderasse o desligamento. O entendimento foi de que a exclusão poderia ferir a Constituição Federal e legislações de proteção à mulher que garantem o acesso ao trabalho durante a gestação.
À época, a promotora Lucimara Campaner destacou que a gravidez não poderia ser usada como impedimento para que uma mulher avançasse em um concurso público ou tivesse acesso à carreira profissional.
Com isso, ficou definido que Thainá poderia concluir o curso de formação após o nascimento do filho — o que aconteceu meses depois.
“Espero que seja só a primeira de muitas conquistas. E que o que aconteceu comigo não aconteça com outras mulheres”, disse ela, agora pronta para atuar em uma das unidades prisionais do estado.
O retorno ao curso ocorreu em 2023, quando o filho Théo Lucca estava com nove meses. “Não gostaria que outras mulheres passassem pelo que eu passei. Ainda estava amamentando e cumpri as etapas que não podia fazer grávida”, relembrou.
Além de Thainá, outros 73 novos policiais penais tomaram posse. Com isso, o efetivo da Polícia Penal de Roraima passa a contar com 877 servidores.
“Foram noites de choro”
Antes da posse oficial, os novos policiais haviam sido nomeados em 4 de fevereiro de 2026. Nas redes sociais, Thainá compartilhou duas fotos simbólicas: uma ainda grávida, pouco antes de ser desligada do curso; e outra, três anos depois, já nomeada e ao lado do filho.
Depois de um processo marcado por incertezas, a posse representou mais do que a conquista de um cargo público.
“Foram noites de choro e desespero. Mas deu certo. Hoje, só quero trabalhar, dar o meu melhor e agradecer a Deus”.
Antes de ingressar na Polícia Penal, Thainá estudou para concursos públicos por oito anos. Durante o período em que aguardava a possibilidade de retornar ao curso de formação, também foi aprovada para a Guarda Civil Municipal de Boa Vista. Chegou a ser convocada recentemente, mas optou por permanecer na carreira estadual.
Concurso quase perdeu validade
Segundo ela, o concurso da Polícia Penal ficou suspenso por cerca de 15 meses devido a questionamentos judiciais sobre supostas irregularidades no exame psicotécnico.
O prazo de validade do certame se encerraria em 29 de setembro de 2025. Três dias antes, Thainá decidiu publicar um vídeo nas redes sociais relatando a própria história e a situação de colegas que já haviam concluído o curso, mas ainda aguardavam posse.
A gravação ultrapassou 100 mil visualizações e ajudou a dar visibilidade ao caso.
“Se não fosse essa repercussão, muitas pessoas ficariam de fora”, disse.
Hoje, ao olhar para a trajetória, Thainá também questiona o modelo de distribuição de vagas previsto no edital do concurso, que reservava 70% das vagas para homens e 30% para mulheres.
“Se fosse apenas por nota, eu já estaria trabalhando há três anos. Teve homem com 60 pontos que passou, e mulher com 68 ficando de fora. Em outra chamada, homens com 56 pontos entraram e mulheres com 60 ficaram de fora. Eu fiz 62”, conta.
Ao atuar para garantir que Thainá pudesse concluir o curso de formação, o Ministério Público destacou que o caso também simboliza a importância da proteção dos direitos das mulheres e da garantia de igualdade de oportunidades no acesso ao serviço público.
Fonte: G1 Roraima
Por: M3 Comunicação Integrada