De acordo com a Anvisa, os produtos contêm substâncias que não passaram por avaliação de segurança. Foto: Rmcarvalho/Getty Images
Última modificação em 8 de janeiro de 2026 às 10:17
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento para o tratamento da doença de Alzheimer no Brasil. Chamado Leqembi, o fármaco atua diretamente nos mecanismos da doença e é capaz de desacelerar a progressão da degeneração cerebral, representando um avanço inédito no enfrentamento do Alzheimer.
A liberação ocorreu em 22 de dezembro de 2025 e marca uma mudança importante no cenário terapêutico da doença, que até então contava apenas com tratamentos voltados ao alívio de sintomas, sem interferir no curso da enfermidade.
Doença afeta mais de um milhão de brasileiros
O Alzheimer é a principal causa de demência neurodegenerativa no mundo. No Brasil, mais de um milhão de pessoas convivem com a doença, segundo dados do Ministério da Saúde. Caracterizada pela perda progressiva da memória e de outras funções cognitivas, a enfermidade impacta não apenas os pacientes, mas também famílias e sistemas de saúde.
Até agora, os tratamentos disponíveis no país atuavam apenas sobre as consequências do Alzheimer, como alterações comportamentais e dificuldades cognitivas, sem agir sobre os processos biológicos responsáveis pela doença.
Como o Leqembi age no organismo
O Leqembi é produzido a partir do lecanemabe, um anticorpo monoclonal desenvolvido para atuar diretamente contra a beta-amiloide, proteína que se acumula no cérebro de pessoas com Alzheimer e forma placas associadas à destruição dos neurônios.
Esses anticorpos funcionam de maneira semelhante aos produzidos naturalmente pelo sistema imunológico para combater vírus e bactérias. No caso do lecanemabe, o objetivo é ativar a resposta imune para ajudar a remover as placas de beta-amiloide do cérebro.
O medicamento é indicado para pacientes que já apresentam demência leve causada pelo Alzheimer e deve ser administrado por meio de infusão intravenosa, a cada duas semanas. Seu uso é recomendado apenas nos estágios iniciais da doença.
Resultados clínicos
A eficácia do lecanemabe foi demonstrada em um estudo publicado em 2022 na revista científica New England Journal of Medicine, uma das mais respeitadas do mundo.
O ensaio clínico envolveu 1.795 pacientes com Alzheimer em estágio inicial, acompanhados por um período de 18 meses. Os participantes que receberam o medicamento apresentaram uma redução do declínio cognitivo e funcional, indicando que a progressão da doença ocorreu de forma mais lenta em comparação ao grupo que não recebeu o tratamento.
Desde 2023, o Leqembi já é aprovado e comercializado nos Estados Unidos, após aval da agência reguladora norte-americana, a FDA. Com a decisão da Anvisa, o medicamento passa a integrar também o arsenal terapêutico disponível no Brasil.
Um novo capítulo na busca por tratamentos
O surgimento do Leqembi se insere em um contexto de décadas de tentativas frustradas de encontrar terapias capazes de interferir diretamente na evolução do Alzheimer.
Até os anos 1970, os conhecimentos sobre a doença eram limitados. Sabia-se apenas que o envelhecimento estava associado à atrofia cerebral e ao acúmulo de duas proteínas anormais: a tau, que se deposita dentro dos neurônios, e a beta-amiloide, que se acumula fora deles. Os tratamentos da época eram essencialmente paliativos e sem eficácia comprovada.
Com o avanço das pesquisas, a compreensão dos mecanismos da doença evoluiu, permitindo o desenvolvimento de terapias direcionadas às suas causas biológicas.
“Isso representa uma nova linha de pesquisa e uma porta que se abre para intervir na evolução da doença”, afirma o neurocirurgião Helder Picarelli, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Cautela apesar do avanço
Apesar do otimismo, especialistas reforçam que o tratamento ainda é recente e exige acompanhamento cuidadoso. Picarelli destaca que, embora promissora, a terapia precisa ser avaliada a longo prazo.
“Esse tipo de tratamento com anticorpos específicos tem modificado a abordagem da doença, mas ainda é algo novo. Precisamos aguardar mais tempo para uma conclusão definitiva. Não sabemos ainda se o custo elevado e os riscos associados compensam plenamente o benefício observado”, pondera o médico.
A aprovação do Leqembi, no entanto, representa um marco na luta contra o Alzheimer e reforça a expectativa de que novas terapias capazes de frear a progressão da doença possam surgir nos próximos anos.
Fonte: Agência Gov
Por: M3 Comunicação Integrada