
Última modificação em 12 de maio de 2026 às 11:39
Um estudo divulgado nesta segunda-feira revelou que garimpeiros ilegais passaram a utilizar equipamentos menores e menos potentes em terras indígenas da Amazônia como forma de driblar a fiscalização intensificada nos últimos anos.
A conclusão faz parte do relatório O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão, lançado pela Universidade do Estado do Pará em parceria com o Instituto Mãe Crioula.
A pesquisa analisou a situação nas terras indígenas dos povos Munduruku, Yanomami e Kayapó, considerados os mais afetados pelo garimpo ilegal no país.
Segundo o levantamento, a redução no uso de grandes maquinários não representa enfraquecimento da atividade, mas uma adaptação estratégica para manter a exploração mineral e evitar operações policiais após ações de retirada de invasores realizadas pelo governo federal.
O estudo também aponta que o garimpo ilegal passou a operar com estruturas financeiras mais sofisticadas, incluindo relações com facções criminosas, lavagem de dinheiro e fundos de investimento. De acordo com os pesquisadores, operações recentes da Polícia Federal revelaram conexões entre mineração ilegal e organizações criminosas.
Migração e dependência econômica
A pesquisa identificou ainda que grande parte da mão de obra empregada nos garimpos ilegais do Pará é formada por trabalhadores maranhenses, em um fluxo migratório regional que ocorre desde os anos 1990.
Os pesquisadores analisaram municípios como Jacareacanga e Itaituba, onde vivem comunidades Munduruku e onde o garimpo passou a influenciar diretamente a economia local.
Segundo o pesquisador Fabiano Bringe, um dos autores do estudo, pequenos comércios e prestadores de serviços também passaram a depender financeiramente da atividade ilegal, fenômeno chamado por ele de “minero-dependência”.
O levantamento mostra ainda que muitos indígenas aderem ao garimpo por falta de alternativas de renda. Em Jacareacanga, por exemplo, bairros periféricos surgiram a partir desse processo de deslocamento e vulnerabilidade social.
“Há a desterritorialização deles, que vão para periferias próximas, conformando bairros precarizados como os que a gente costuma ver nas grandes e médias cidades, com condições de saneamento péssimas”, afirmou Bringe.
O pesquisador destacou ainda que, apesar das condições difíceis do trabalho no garimpo, a renda obtida costuma ser superior à da agricultura, pesca ou artesanato, atraindo principalmente os jovens indígenas.
Crescimento econômico e operações policiais
Dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) apontam crescimento expressivo da atividade econômica em Jacareacanga entre 2014 e 2023. O número de caminhões quase triplicou no período, enquanto o PIB municipal saltou de R$ 177 mil para R$ 625 mil.
O governo federal realizou diversas operações contra o garimpo ilegal nos últimos anos. Em fevereiro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a operação Munduruku Log, bloqueando R$ 24 milhões de investigados. Já a operação Flygold II, realizada em dezembro de 2024, apurou movimentações de cerca de R$ 6 bilhões ligadas ao comércio ilegal de ouro.
O estudo da UEPA contou com apoio do Ministério dos Povos Indígenas e analisou dados do período entre 2017 e 2023.
Fonte: Agência Brasil