Última modificação em 11 de março de 2026 às 11:39

O Baixo Rio Branco, no sul de Roraima, deve ganhar milhares de novos habitantes nas próximas semanas. Cerca de 150 mil filhotes de tartaruga-da-Amazônia devem nascer até o fim de março nas praias da região — número considerado recorde pelo Projeto Quelônios da Amazônia (PQA), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Os filhotes foram catalogados em mais de 800 ninhos espalhados pelos chamados “tabuleiros”, áreas de desova nas praias do rio. Os ovos são monitorados e protegidos pela equipe do projeto, que atua para evitar a ação de predadores e combater o tráfico ilegal da espécie.
Criado há 47 anos, o Projeto Quelônios da Amazônia tem como objetivo proteger espécies de quelônios ameaçadas de extinção na região amazônica. O grupo inclui répteis de casco, como jabutis, tracajás e cágados. A tartaruga-da-Amazônia é a maior entre os quelônios de água doce e pode chegar a 1 metro de comprimento, pesar até 65 quilos e viver cerca de 100 anos.
Em Roraima, o projeto acompanha áreas de reprodução no Baixo Rio Branco, região que abriga 16 comunidades ribeirinhas e cujo acesso só é possível após várias horas de navegação pelo rio.
As fêmeas depositam entre 90 e 150 ovos por ninho e não permanecem no local após a desova. Quando os filhotes nascem, precisam caminhar sozinhos até a água — momento em que ficam vulneráveis a predadores como aves e outros animais.
Segundo o coordenador do PQA em Roraima, Rui Bastos, o manejo realizado pelo projeto aumenta significativamente as chances de sobrevivência.
“Sem interferência humana, muitos filhotes não conseguem chegar ao rio por causa dos predadores na praia. Normalmente apenas 30% ou 40% sobreviveriam. O nosso trabalho é aumentar essa taxa e garantir que mais tartaruguinhas cheguem à água”, explicou.
Os ovos monitorados foram depositados entre setembro e dezembro de 2025, principalmente na Ilha Maú, uma das principais áreas de reprodução da espécie no estado. O número final de filhotes ainda pode aumentar, já que novos nascimentos continuam sendo registrados.
O volume atual representa um crescimento expressivo em relação aos ciclos anteriores. No período de 2023-2024 foram contabilizados mais de 57 mil ovos, enquanto em 2024-2025 o número chegou a cerca de 104 mil.
Durante décadas, a tartaruga-da-Amazônia sofreu forte pressão da caça e da coleta ilegal de ovos, além do tráfico praticado por criminosos conhecidos como “tartarugueiros”. Em algumas regiões da Amazônia, o animal ainda é consumido, o que contribuiu para a redução da população da espécie.
De acordo com o analista ambiental do Ibama e biólogo Júlio Domingues, o trabalho de monitoramento foi essencial para recuperar parte da população.
“A pressão de caça e a retirada de ovos reduziram muito a população ao longo do tempo. O projeto passou a atuar tanto na fiscalização quanto no monitoramento do ciclo reprodutivo, protegendo os ninhos e acompanhando as áreas de desova”, explicou.
Hoje, a espécie ainda é considerada vulnerável, mas já não enfrenta o mesmo nível crítico de ameaça registrado no passado.
Além da importância cultural para comunidades amazônicas, as tartarugas desempenham papel relevante no equilíbrio ambiental. Elas se alimentam principalmente de plantas aquáticas, sementes e algas, ajudando na dinâmica dos rios e na dispersão de sementes. Ao mesmo tempo, especialmente quando jovens, também fazem parte da cadeia alimentar de outros animais.
O projeto também desenvolve ações de educação ambiental com moradores e estudantes das comunidades ribeirinhas. Durante uma soltura recente de filhotes, alunos da escola municipal Oscar Batista dos Santos, da comunidade Sacaí, participaram da atividade.
Para a estudante Maria Isabela Sampaio, de 12 anos, a experiência foi marcante.
“Foi muita alegria e emoção, porque eu nunca tinha participado de algo assim. Aprendi que as tartarugas são importantes para a natureza”, contou.
O estudante Bruno de Souza, de 16 anos, também destacou o impacto da iniciativa.
“Muitas tartarugas não conseguem chegar ao rio por causa dos predadores. Poder ajudar soltando os filhotes e dando uma nova chance de vida para elas é muito especial”, disse.
Fonte: G1 RR
Por: M3 Comunicação Integrada