Última modificação em 6 de março de 2026 às 10:16

Sete em cada dez mulheres afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio moral ou sexual em cidades brasileiras, principalmente em ruas e espaços públicos. O dado faz parte da pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres, divulgada na quinta-feira (5).
O levantamento foi realizado pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec, empresa especializada em pesquisas sociais e de mercado. Ao todo, foram entrevistadas 3,5 mil pessoas em dezembro de 2025 nas capitais Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Segundo os dados, entre as 2.066 mulheres que participaram do estudo, 71% disseram já ter sofrido algum tipo de assédio em pelo menos um dos seis ambientes analisados: ruas e espaços públicos, transporte público, ambiente de trabalho, ambiente doméstico, bares ou casas noturnas e transporte particular.
“A insegurança é uma regra na nossa vida, não é uma exceção. Há uma proporção alta de mulheres que seguem dizendo que já sofreram assédio”, afirmou Patrícia Pavanelli, diretora de Opinião Pública e Política da Ipsos-Ipec, durante o lançamento da pesquisa no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo.
Apesar de o índice ser ligeiramente menor do que o registrado em 2014, quando 74% das mulheres relataram assédio, as instituições responsáveis pelo estudo avaliam que o número permanece elevado e persistente nas cidades pesquisadas.
Assédio nas ruas e no transporte
Entre os locais analisados, ruas e espaços públicos — como praças, parques e praias — aparecem como os ambientes mais citados pelas mulheres, com 54% das respostas. Em seguida está o transporte público, mencionado por 50% das entrevistadas.
O ambiente de trabalho foi citado por 36% das mulheres. Já bares e casas noturnas aparecem em 32% das respostas, enquanto o ambiente familiar foi mencionado por 26%.
Casos de assédio em transporte particular, como táxis ou carros por aplicativo, foram relatados por 19% das participantes.
O estudo também aponta que 5% das mulheres disseram já ter sofrido assédio em todos os seis ambientes avaliados.
“Embora pareça pouco, a gente está falando de mulheres que vivem em 10 capitais que [concentram] 33 milhões de habitantes, e 5% delas dizem que já sofreram algum tipo de assédio em todos os locais [mencionados]”, acrescentou Patrícia.
Punição e rede de proteção
A pesquisa também investigou quais medidas a população considera prioritárias para enfrentar a violência contra mulheres.
A principal demanda apontada pelos entrevistados foi o aumento das penas para agressores, citado por 55% das pessoas. Em seguida aparece a ampliação dos serviços de proteção às vítimas, com 48% das respostas.
A agilização das investigações de denúncias foi mencionada por 37% dos participantes.
“A pesquisa aponta para gente um caminho que combina esse desejo da punição e da justiça, mas há necessidade de uma rede de apoio mais robusta”, explicou Patrícia Pavanelli.
Segundo ela, também é necessário fortalecer a aproximação entre a população e os agentes de segurança, além de ampliar o treinamento de profissionais para acolher mulheres vítimas de violência.
“Vale a pena destacar que a gente tem quase três em cada 10 homens hoje dizendo que é prioritário criar políticas de segurança comunitária, aproximando a população dos agentes de segurança.”
Debate entre especialistas
Durante o evento de lançamento da pesquisa, especialistas também discutiram estratégias de enfrentamento à violência de gênero.
A promotora Fabíola Sucasas, titular da Promotoria de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público de São Paulo, afirmou que o problema não pode ser enfrentado apenas por meio de punições mais severas.
“Essa ideia de que o direito penal vai dar conta de tudo, de que o homem precisa ser preso, ele precisa ser punido, é uma visão que é patriarcal.”
Ela lembrou que o feminicídio já possui uma das penas mais altas previstas no Código Penal — de até 40 anos de prisão — e que isso não tem sido suficiente para reduzir os casos.
“Isso não tem intimidado [os agressores], muito pelo contrário, o feminicídio tem aumentado e tem aumentado também o descumprimento das medidas protetivas de urgência.”
Para Naiza Bezerra, coordenadora de Políticas para Mulheres da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, dados como os apresentados pela pesquisa devem orientar políticas públicas de proteção.
“Muitas mulheres não estão seguras no lar e, quando ela vai para o espaço público, para a rua, o transporte público, ela enfrenta uma insegurança ainda maior.”
Ela também destacou a sensação constante de vulnerabilidade enfrentada por muitas mulheres nas cidades.
“Sair de casa tendo que observar que horas que eu estou saindo, que horas que eu vou chegar. Eu saio do meu trabalho pensando nisso: não posso chegar muito mais que dez da noite na minha região. É inseguro para mim, é inseguro para muitas mulheres.”
Divisão das tarefas domésticas
O levantamento também analisou como homens e mulheres percebem a divisão das tarefas domésticas.
Entre todos os entrevistados, 39% disseram que os afazeres da casa são responsabilidade de todos, mas que as mulheres acabam realizando a maior parte. Outros 37% afirmaram que as atividades são divididas igualmente entre homens e mulheres.
A percepção, porém, muda quando analisada por gênero. Entre os homens, 47% acreditam que as tarefas são divididas de forma igualitária. Entre as mulheres, esse percentual cai para 28%.
Além disso, 44% das mulheres afirmam que elas acabam assumindo a maior parte das tarefas domésticas, mesmo quando a responsabilidade deveria ser compartilhada. Entre os homens, esse reconhecimento aparece em 32% das respostas.
Fonte: Agência Brasil
Por: M3 Comunicação Integrada