Lago do Parque do Ibirapuera com seu volume de água secando em 2024. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Última modificação em 23 de janeiro de 2026 às 11:54
O mundo entrou em uma fase de falência hídrica, em que o consumo humano de água ultrapassa a capacidade natural de reposição dos recursos. O alerta consta em um relatório da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), que classifica a escassez global não como uma crise passageira, mas como um estado estrutural de insolvência, com impactos diretos sobre cidades, governos e populações em todos os continentes.
Segundo o estudo, 75% da população mundial vive atualmente em países considerados inseguros ou criticamente inseguros em relação à disponibilidade de água. Além disso, cerca de 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa por pelo menos um mês ao ano, afetando o abastecimento doméstico, a produção de alimentos e a saúde pública.
O relatório também chama atenção para o acesso desigual aos serviços básicos. Estima-se que 2,2 bilhões de pessoas ainda não tenham acesso à água potável gerida de forma segura, enquanto 3,5 bilhões vivem sem saneamento adequado. Mesmo em regiões onde os volumes totais de água permanecem relativamente estáveis, a poluição e a degradação ambiental reduzem significativamente a parcela que pode ser utilizada.
Para os pesquisadores, a distinção entre crise e falência é fundamental para compreender a gravidade do cenário. Enquanto crises são temporárias e reversíveis, a falência hídrica envolve danos permanentes, como aquíferos compactados e o derretimento de geleiras, que não se regeneram em escalas de tempo humanas.
“Dia Zero” deixa de ser exceção e vira sintoma global
O relatório aponta o chamado “Dia Zero” como a face mais visível da falência hídrica nas cidades. O termo descreve o momento em que os sistemas públicos deixam de fornecer água encanada à maior parte da população. São Paulo, Cidade do Cabo, Chennai e Teerã são citadas como exemplos de centros urbanos que chegaram ao limite de seus sistemas de abastecimento.
De acordo com a análise, esses episódios não foram provocados apenas por secas extremas, mas por anos de sobreexploração dos recursos, crescimento acelerado da demanda e falta de investimentos estruturais em fontes alternativas de água. Em todos os casos, os colapsos foram precedidos por alertas técnicos ignorados e longos períodos de estresse hídrico.
A ONU destaca que o “Dia Zero” não deve ser tratado como um desastre isolado, mas como um sinal de que os sistemas urbanos operam além de sua capacidade hidrológica. Mesmo quando medidas emergenciais evitam o colapso total, o abastecimento raramente retorna aos níveis anteriores, consolidando regimes de racionamento e intermitência.
Esse cenário altera profundamente a relação das cidades com a água. Soluções emergenciais, como caminhões-pipa e poços improvisados, passam a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas, tornando o abastecimento mais caro, instável e desigual.
Escassez aprofunda desigualdades sociais
A falência hídrica afeta de forma desigual diferentes grupos sociais e funciona como um acelerador da desigualdade, aponta o relatório. Famílias de maior renda conseguem mitigar temporariamente a escassez por meio de infraestrutura privada, enquanto comunidades vulneráveis enfrentam acesso precário e custos elevados. Em muitos assentamentos informais, a ausência de água encanada equivale a um “Dia Zero” permanente.
Mulheres, crianças e jovens em áreas marginalizadas estão entre os mais impactados pela falta de água de qualidade e de saneamento. A insegurança hídrica amplia riscos sanitários, aumenta a exposição a doenças e impõe sobrecargas de trabalho, especialmente para mulheres responsáveis pela coleta de água. Pequenos agricultores também sofrem perdas, tendo seus direitos de acesso frequentemente preteridos em favor de grandes usuários.
O estudo conclui que os modelos atuais de gestão permanecem baseados em um mundo de abundância que já não existe. A governança centrada em respostas emergenciais tem se mostrado insuficiente diante de um cenário de limites físicos permanentes.
Segundo a UNU-INWEH, as Conferências da ONU sobre Água, previstas para 2026 e 2028, serão decisivas para redefinir a agenda global. Reconhecer a água como um recurso finito e sujeito a limites naturais será determinante para a sustentabilidade das cidades e das sociedades modernas.
Fonte: ONU
Por: M3 Comunicação Integrada