Com 3.113 pessoas entrevistadas nas cinco regiões do País, ao longo de 2024Com 3.113 pessoas entrevistadas nas cinco regiões do País, ao longo de 2024. Foto: Reprodução/Mídias Sociais
Última modificação em 13 de janeiro de 2026 às 10:42
Os brasileiros têm adotado uma postura cada vez mais cautelosa ao falar de política em aplicativos de mensagens. O receio de conflitos e a preservação das relações pessoais fazem com que muitos evitem debates em grupos de família e de trabalho, ao mesmo tempo em que buscam espaços mais segmentados para se manifestar, como grupos temáticos e o status do WhatsApp.
O comportamento é revelado pela quinta edição da pesquisa “Os vetores da comunicação política em aplicativos de mensagem: hábitos e percepções”, realizada pelo InternetLab em parceria com a Rede Conhecimento Social. O estudo ouviu 3.113 pessoas nas cinco regiões do país, ao longo de 2024.
Autocensura para evitar conflitos
De acordo com o levantamento, 50% dos entrevistados evitam falar de política em grupos familiares, enquanto 52% afirmam se policiar cada vez mais sobre o que compartilham nos aplicativos. A cautela está ligada ao medo de conflitos, à preocupação com a própria imagem e ao desejo de preservar vínculos afetivos em ambientes onde as posições políticas já estão bem definidas.
“As pessoas permanecem cautelosas ao se comunicar por aplicativos, falando pouco ou nada de política para evitar conflitos”, explicou Heloisa Massaro, diretora do InternetLab. Segundo ela, o comportamento indica um uso mais estratégico dessas plataformas.
Mulheres se expõem menos ao debate político
A pesquisa aponta diferenças de comportamento entre homens e mulheres. O autopoliciamento é mais intenso entre as mulheres, que relatam maior receio de participar de debates políticos e de se posicionar em grupos. Já os homens demonstram mais conforto para opinar e menor preocupação com possíveis confrontos.
“As mulheres participam menos de grupos que discutem política e demonstram maior preocupação com o ambiente agressivo desses espaços”, afirmou Massaro. O estudo não identificou diferenças significativas a partir do recorte racial, indicando padrões semelhantes entre pessoas brancas e negras.
Grupos de campanha seguem ativos após as eleições
Apesar da retração nos debates abertos, a pesquisa mostra crescimento da participação em grupos organizados de apoio a candidatos e partidos, especialmente durante as eleições municipais de 2024. Em ambas as plataformas analisadas, um em cada dez usuários participou de grupos com finalidade partidária.
Segundo Massaro, há um refinamento das estratégias de mobilização digital. Metade dos entrevistados afirmou que esses grupos continuaram ativos após o pleito, sendo usados para acompanhar mandatos, divulgar ações políticas e manter contato com representantes eleitos.
Status do WhatsApp vira espaço de manifestação política
O status do WhatsApp se consolidou como um dos principais espaços de expressão política. A pesquisa indica que 90% dos usuários consomem conteúdos no status e 76% publicam, sendo que mais da metade utiliza o recurso para acompanhar ou postar conteúdos políticos.
Para Marisa Villi, diretora da Rede Conhecimento Social, o status funciona como uma alternativa menos invasiva. “Ele permite que as pessoas se expressem sem gerar confronto direto e sem causar incômodo nos grupos”, afirmou.
WhatsApp e Telegram cumprem papéis diferentes
O estudo também destaca diferenças entre plataformas. O WhatsApp é associado a relações próximas, como família, amigos, trabalho e grupos religiosos. Já o Telegram é percebido como um espaço de afinidades e interesses, com maior presença de grupos de notícias, promoções e maior liberdade para acompanhar conteúdos políticos.
“As pessoas escolhem as plataformas de acordo com seus objetivos de interação”, explicou Massaro.
IA, desinformação e retração do debate eleitoral
A edição 2024/2025 da pesquisa incorporou o impacto da inteligência artificial nos aplicativos. Metade dos entrevistados afirmou já ter utilizado a IA da Meta no WhatsApp, índice que chega a 62% entre jovens de 16 a 19 anos.
Ao mesmo tempo, 41% admitiram ter repassado notícias sem checar a fonte em 2024, interrompendo a tendência de queda observada desde 2022. Para os pesquisadores, a combinação entre IA e circulação acelerada de conteúdos amplia os desafios no combate à desinformação.
Debate político mais segmentado
Ao comparar os anos eleitorais de 2020, 2022 e 2024, o levantamento aponta uma queda consistente no compartilhamento de mensagens sobre eleições. O comportamento mais contido é atribuído à saturação das interações virtuais e a uma curadoria mais rigorosa dos espaços digitais.
Mesmo assim, uma em cada dez pessoas ainda prefere se posicionar politicamente, mesmo ciente do risco de desconforto. No geral, a tendência é concentrar o debate político em nichos específicos e ambientes considerados mais seguros.
Por: M3 Comunicação Integrada