Fachada do Ministério da Educação (MEC), na Esplanada dos Ministérios, Brasília, DF. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
Última modificação em 19 de novembro de 2025 às 10:14
O Ministério da Educação (MEC) anunciou que acionou a Polícia Federal e decidiu anular três questões do Enem 2025 após um universitário divulgar, dias antes da prova, itens praticamente idênticos aos aplicados no exame. O caso envolve Edcley Teixeira, que afirmou nas redes sociais participar dos pré-testes do Inep e utilizar a memória para reproduzir perguntas — conteúdo que ele passou a vender em cursos preparatórios on-line.
Cinco dias antes da aplicação do Enem, Edcley publicou uma live em seu canal no YouTube, em 11 de novembro, na qual corrigiu questões muito semelhantes às que apareceram no exame do último domingo. Segundo o MEC, embora nenhuma pergunta tenha sido apresentada de forma idêntica, três itens exibiram “similaridades pontuais” suficientes para justificar a anulação.
A equipe técnica responsável pela montagem do Enem analisou o caso e concluiu que havia elementos para invalidação das questões, com base em informações internas sobre o processo de elaboração da prova.


PF acionada e segurança do banco de itens
Em nota, o MEC informou que a Polícia Federal foi acionada para investigar a conduta e a autoria da divulgação. O Inep afirmou que segue protocolos rigorosos para a elaboração e pré-teste das questões que integram o Banco Nacional de Itens — estrutura que abastece o Enem — e que todas as etapas de segurança foram cumpridas.
Os pré-testes, segundo o instituto, são avaliações utilizadas para medir a qualidade e o nível de dificuldade das perguntas antes de sua eventual inclusão no exame.
Questões idênticas e histórico de antecipações
Na live que motivou a denúncia, Edcley apresentou, por exemplo, uma questão sobre evolução de espécies cuja estrutura é diferente da aplicada no Enem 2025, mas quatro das cinco alternativas eram idênticas às exibidas na prova — incluindo a resposta correta. Em outra postagem, nos stories, ele mostrou uma questão sobre ruído sonoro que reproduzia integralmente as alternativas, os valores e até a função logarítmica presentes no exame.
O universitário também afirma ter tido acesso antecipado a perguntas do Enem de 2023 e 2024 e que trabalhou esses itens em seu curso preparatório. Procurado, ele não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Histórico: de crítico a usuário da mesma estratégia
Edcley já havia produzido conteúdo criticando justamente o método que agora é atribuído a ele. Em 2022, gravou um vídeo acusando cursinhos de usarem a prova Prêmio Capes Talento Universitário — um dos pré-testes do Inep — para identificar questões que seriam aproveitadas no Enem. Na época, ele classificou o método como um “vazamento” e disse que grandes cursinhos incentivavam alunos a memorizar perguntas desses testes.

Ele também apontou, naquele vídeo, que o Banco Nacional de Itens enfrentava escassez de questões, fazendo com que itens fossem pré-testados no mesmo ano em que poderiam entrar na prova. Isso, segundo ele, fragilizava o exame: “Os itens deveriam ser testados com anos de diferença”, afirmou na ocasião.
Mas, já no ano seguinte, Edcley passou a se beneficiar do mesmo processo. Em 2023, divulgou um material chamado “Essas questões estarão no Enem 2023”, no qual dizia ter participado do pré-teste e, com ajuda de amigos, memorizado cerca de 90 itens inéditos.