Pessoas negras sofrem com o racismo desde a infância. (Foto: Pexels/Reprtodução)
Última modificação em 6 de outubro de 2025 às 09:58
Uma em cada seis crianças de até 6 anos já sofreu racismo no Brasil, segundo a pesquisa “Panorama da Primeira Infância: o impacto do racismo”, encomendada ao Datafolha pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. O levantamento foi divulgado nesta segunda-feira (6) e revela que as creches e pré-escolas são os locais onde ocorrem a maior parte dos casos.
De acordo com o estudo, 16% dos responsáveis por crianças nessa faixa etária afirmaram que elas já sofreram discriminação racial. O índice é maior entre cuidadores pretos e pardos (19%) do que entre brancos (10%). A incidência também cresce conforme a idade: 10% dos casos envolvem bebês e crianças de até 3 anos, e 21% atingem crianças de 4 a 6 anos.
A pesquisa ouviu 2.206 pessoas, sendo 822 responsáveis diretos por bebês e crianças de 0 a 6 anos, em entrevistas presenciais realizadas em abril deste ano.
Onde o racismo acontece
O ambiente escolar aparece como o principal cenário das agressões: 54% dos responsáveis afirmam que as crianças sofreram discriminação racial em creches ou pré-escolas — sendo 61% na pré-escola e 38% nas creches.
Outros locais também foram citados:
- 42% relataram casos em espaços públicos (ruas, praças, parquinhos);
- 20% em bairros, comunidades ou condomínios;
- 16% dentro da própria família;
- 14% em locais privados (como shoppings e clubes);
- 6% em serviços de saúde ou assistência;
- 3% em igrejas e templos religiosos.
Para Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, os dados reforçam a necessidade de tornar as escolas espaços de proteção.
“A escola é o primeiro espaço de socialização da criança e deveria ser um ambiente de acolhimento. É fundamental combater o racismo desde o início da vida, quando o desenvolvimento infantil está em seu auge”, destacou.
Percepções sobre o racismo
O levantamento também mostra como os responsáveis percebem o problema:
- 63% acreditam que pessoas pretas e pardas são tratadas de forma diferente por causa da cor da pele, tipo de cabelo ou traços físicos;
- 22% reconhecem a existência do racismo, mas consideram raro entre crianças pequenas;
- 10% acreditam que o país “quase não é racista”;
- 5% afirmam desconhecer o tema.
Mariana Luz defende que as escolas tenham protocolos claros para lidar com situações de discriminação, incluindo a formalização de denúncias e formação antirracista de professores, diretores e equipes de apoio.
Efeitos e combate ao racismo infantil
Segundo o estudo, o racismo na infância impacta o desenvolvimento físico e emocional das crianças, podendo gerar estresse tóxico e afetar a saúde integral. Por isso, as creches e pré-escolas devem ser vistas como espaços-chave de prevenção e proteção, com profissionais capacitados e materiais pedagógicos adequados à educação das relações étnico-raciais.
A fundação reforça que a Lei nº 10.639/2003, que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira em todas as etapas escolares, ainda é pouco cumprida. Um levantamento de 2023 mostra que sete em cada dez secretarias municipais de Educação não realizaram ações efetivas para aplicar a norma.
“Educar desde cedo para o respeito é essencial. Precisamos proteger crianças negras e indígenas, mas também ensinar crianças brancas a reconhecer e combater o racismo estrutural”, afirmou Mariana Luz.
Racismo é crime
O racismo é crime inafiançável e imprescritível, conforme a Lei nº 7.716/1989 e a Constituição Federal. A Lei nº 14.532/2023, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aumentou as penas para injúria racial, que agora podem variar de 2 a 5 anos de reclusão, podendo dobrar se o crime for cometido por mais de uma pessoa.
As vítimas de racismo devem registrar boletim de ocorrência na Polícia Civil e relatar detalhes do caso, incluindo testemunhas. Em situações de agressão física, é necessário realizar exame de corpo de delito sem alterar as evidências, como roupas ou machucados, que podem servir de prova.